Os evangelistas não nos dizem, por não ser importante, menos para nós que apreciamos completar os vazios.
Especulemos.
O imaginário comum é que o parto se deu em meio aos animais da família. No entanto, é difícil aceitar que os parentes de José tenham aberto mão da hospitalidade e despachado a grávida para o estábulo. Mas pode ser.
O mas provável é que, ocupada a kataluma por outro familiar, os parentes de José prepararam um outro quarto no andar térreo, de modo que o parto pudesse transcorrer naturalmente, obedecidos preceitos de higiene e saúde da lei mosaica. Ao nascer, um bebê devia, por exemplo, ser recebido por uma parteira, que providenciava para que fosse lavado e esfregado com sal.
E a manjedoura?
O primeiro pavimento da casa era o lugar onde mais tempo se passava. Ali ficava a cozinha. Ali se guardavam as coisas da casa. Ali alguns dormiam. Mais ao fundo, alguns animais mais dóceis, como jumentos e ovelhas, passavam a noite e eram alimentados. A manjedoura era usada para esse fim. Não havia algo como um berço, mas havia manjedouras, queres podiam carregar. Tomaram um, limparam-no e o cobriram de panos.
Adulto, Jesus não teve uma cama que lhe fosse sua.
Criança, Jesus não teve um berço que pudesse ser seu.
Isto lhe foi tirado.
Ainda hoje, além de não lhe dar a nossa kataluma, podemos surrupiar-lhe a divindade, deixando-o tão fraco que não pode ser cultuado.
Podemos privar-lhe da sua humanidade, que o deixa tão distante que nos faz nos sentir sozinhos.
ISRAEL BELO DE AZEVEDO
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BOM DIA: Kataluma, 2


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comentários
Nada era dEle
Gioia Júnior
Disse um poeta um dia, fazendo referência ao Mestre amado: "O berço que Ele usou na estrebaria,
por acaso era dEle? - Era emprestado!
E o manso jumentinho, em que, em Jerusalém, chegou montado e palmas recebeu pelo caminho,
por acaso era dEle? - Era emprestado!
E o pão - o suave pão que foi por seu amor multiplicado,
alimentando toda a multidão -, por acaso era dEle?
- Era emprestado!
esse prato era seu? - Era emprestado!
E o famoso barquinho? aquele barco em que ficou sentado,
mostrando à multidão qual o caminho, por acaso era dEle?
- Era emprestado!
E o quarto em que ceou ao lado dos discípulos, ao lado
de Judas, que o traiu, de Pedro, que o negou,
por acaso era dEle? - Era emprestado!
E o berço tumular, que, depois do Calvário, foi usado
e de onde havia de ressuscitar, o túmulo era dEle?
- Era emprestado!
e a cruz que carregou e onde morreu, essas eram, de fato, de Jesus!"
Isso disse um poeta, certo dia, numa hora de busca da verdade; mas não aceito essa filosofia que contraria a própria realidade...
O berço, o jumentinho e o suave pão, os peixes, o barquinho, o quarto e a sepultura, eram dEle a partir da criação, "Ele os criou" - assim diz a Escritura...
Mas a cruz que Ele usou - a rude cruz, a cruz negra e mesquinha onde meus crimes todos expiou,
essa não era Sua, ESSA CRUZ ERA MINHA!
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