Darci Dusilek - Discurso de Orador da Turma “Martin Luther King Jr” do STBSB proferido no dia 30 de novembro de 1968.

Darci Dusilek - Discurso de Orador da Turma “Martin Luther
King Jr” do STBSB proferido no dia 30 de novembro de 1968.

Exmo. Sr. Dr. João Filson Soren, Magnífico Reitor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.
Exmo. Sr. Prof. Irland Pereira de Azevedo, mui digno paraninfo da turma de formandos “Martin Luther King Jr.
Exmo. Sr. Dr. David Malta do Nascimento, mui digno presidente da Junta Administrativa do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.
Caros Mestres, companheiros na busca por uma verdade menos imperfeita; amados colegas, participantes de um ideal e experiência comuns em sua essência aos quais devo a honra e elevado privilégio em ocupar esta tribuna.
Queridos pais, co-participantes da nossa vitória. Senhoras, senhores, irmãos.

A aurora do dia irrompeu mais uma vez na data de hoje. Numa sequência, quase interminável, desde tempos imemoriais, por milhares e milhares de anos ela tem irrompido nos horizontes do mundo em que vivemos trazendo em seu bojo experiências que, em um longo processo forcejam o homem ao uso da sua mente numa tentativa de interpretá-las, numa tentativa de interpretar a sua própria existência. Sim, e essa mesma autora despontou mais uma vez no horizonte das nossas vidas.

Agora, quase ao findar do dia por ela iniciado, uma nova experiência de nós se assenhora. Temos concluído um curso que visa em seu caráter ideal capacitar pessoas a, de um modo menos imperfeito, emprestar a sua cooperação na promoção do Reino de Deus entre os homens. À nossa frente, desafiando-nos está o desconhecido representado pela própria natureza da existência. Vimos de concluir um curso. No entanto, apenas iniciamos os nossos estudos. A profundidade e seriedade das nossas pesquisas doravante hão de depender exclusivamente do nosso interesse pelo homem e pelos seus problemas de natureza religiosa, ética e moral. É dizer, dos seus problemas existenciais.

Estamos cônscios do momento estratégico que Deus nos proporciona viver na história deste mundo. O século XX, a exemplo dos séculos XV e XVI que testemunharam a Renascença, é um século de transição. E esta se processa em um ritmo bem acelerado. Foi ao inicio dele que o homem principiou primeiro a engatinhar nos domínios da navegabilidade atmosférica do seu habitat natural. Decorridos apenas 60 anos, o homem ultrapassou os limites da atmosfera e, gradativamente, adentra pelas etéreas do espaço infinito. Em todos os setores em que é permitido ao homem o uso de sua razão, o conhecimento tem se multiplicado e propagado de uma forma verdadeiramente fantástica. Porém, longe de lamentarmos tal progresso científico, deveríamos antes tributar os mais altos brados de glórias a Deus. Por isso, que o momento histórico que vivemos há de marcar de uma forma inelutável o futuro. A verdade é que, em nenhum outro momento da história do cristianismo, as palavras do apóstolo Paulo “O mundo aguarda a manifestação dos filhos de Deus”, foram tão contemporâneas como agora. Após haver experimentado tudo, após haver gasto os seus recursos sem, contudo, experimentar a solução para os seus problemas, o homem chega ao reconhecimento das suas limitações. O homem está buscando algo que lhe dê satisfação completa e sentido para a vida. Não são poucos os cientistas que se voltam para a religião hoje em dia buscando repostas às perguntas levantadas pela ciência.

Sim, e se é verdade que acreditamos na existência de um Deus vivo, dinâmico, mister se faz que aceitemos a realidade de sua ação teleológica na história, de sua ação através de atos poderosos e com uma finalidade última – a de revelar-se à espécie humana e dela tornar-se conhecido em bases de relações pessoais e com propósitos salvíficos. E essa ação dinâmica de Deus é manifesta até mesmo pelo progresso científico.

Vivemos em um século e transições, de mudanças, de substituição de valores. A nossa responsabilidade de cristãos mais ainda, de intérpretes de Deus é, por isto mesmo, acrescida. Os homens hão de exigir de nós que interpretemos os fatos históricos contemporâneos à luz da Revelação divina. Isso exigirá estudos profundos e demorados de nossa parte, ao mesmo tempo, que uma experiência profunda e marcante com Deus. Mas, de nós se exigirá, também, o elemento coragem. Sim, porque não é fácil emitir conceitos em tempos de transição, de instabilidade. A coragem com a qual precisamos nos armar é a coragem profética, pois os princípios operantes nas circunstâncias históricas em que eles viveram são idênticos aos de nossa época. Eles também marcaram um período de transição na religião judaica, mas com o risco da própria vida interpretaram a vontade de Deus para o seu povo.
Esta é a nossa missão para a época que vivemos: interpretar e proclamar a verdade dinâmica de um Deus eterno, presente na história e interessado pelos problemas humanos. De um Deus que é a afirmação para todas as dúvidas e ansiedades humanas.

O mundo aguarda a manifestação dos filhos de Deus. Cristo manifestou-se ao mundo na “plenitude dos tempos”, num tempo e lugar definido na história. Porém, esse episódio, essa plenitude dos tempos não ficou perdida num passado de vinte séculos. Ela está presente. O tempo em que estamos vivendo, os problemas que estamos enfrentando estão a indicar-nos que o século presente é a plenitude dos tempos para nós e este mesmo século aguarda a manifestação dos filhos de Deus.

E, quando nós falamos de manifestação, automaticamente temos que falar de comunicação. Para que possa haver comunicação eficiente é preciso que, além do conteúdo ou da verdade essencial a ser transmitida tenhamos, também, um método eficiente. Qual seria, então, o método que poderia da forma mais objetiva possível comunicar a verdade cristã?

Sabemos que neste campo não podemos dogmatizar. O método está jungido ao background cultural e ao desenvolvimento de uma época. O método nunca é estático, pelo contrário, é dinâmico como a própria existência. Ou ele varia de acordo com as circunstâncias culturais específicas de uma época ou está fadado à desatualização e desaparecimento. É preciso que estudemos e coloquemos, em prática, novos meios de comunicação da verdade que experimentamos. É dizer, novas formas de proclamação. Tal imperativo que a época nos compele não nos deve atemorizar. Antes, deve constituir-se num verdadeiro e legítimo desafio para nós. Negar a necessidade de mudança na metodologia da comunicação, qualquer que seja ela, seria negar a própria capacidade racional do ser humano, a sua possibilidade de progresso, de aperfeiçoamento. Pior ainda, seria negar a Deus a própria capacidade de se revelar nesse setor. As formas tradicionais de proclamação da verdade bíblica tiveram e ainda têm com maior ou menor ênfase, o seu lugar na história do cristianismo. Mas elas precisam ser aperfeiçoadas. É de se lamentar que os cristãos estejam marcando um profundo atraso neste sentido. Ao passo que mensagens malévolas e que pervertem são transmitidas pelos meios mais eficientes possíveis e em grande profusão, a mensagem cristã quase não sofreu alteração no tocante ao método de sua apresentação. Nessa situação temos nós condição moral de condenar o crescimento da corrupção?

Senhores, é de se lamentar que a teologia tenha andado sempre atrás do progresso da humanidade. Já é hora, no entanto, de “despertarmos do sono” e despidos de preconceitos infundados trabalharmos para que a teologia assuma a liderança do progresso científico orientando-o à luz da revelação divina. Precisamos lutar para que os filhos das trevas não sejam sempre, ad perpetum, “mais astutos que os filhos da luz”.

Uma vez que o método tem como objetivo a comunicação da realidade de Deus ao homem, então é ao homem que devemos buscar para lhe falar. É preciso que nos desloquemos dos nossos lugares confortáveis, dos nossos gabinetes, das nossas próprias igrejas, para que possamos manter um encontro e diálogo com o homem no contexto dos seus problemas. E, ali, darmos nosso testemunho. Esse testemunho não é, necessariamente, o testemunho através de palavras, mas o testemunho do serviço ou da diaconia. Muitos exemplos poderíamos vos apresentar, mas, limitar-nos-emos ao de Martin Luther King Jr. Ele lutou pela implantação no mundo dos ideais éticos pregados e vividos por Jesus Cristo. Essa foi a sua proclamação, a sua manifestação como filho de Deus neste mundo conturbado. O fundamento e base última para a sua missão estavam lançados sobre o próprio caráter e natureza de Deus. A sinceridade e ardor com que lutou por seus ideais valeram-lhe a morte, mas a sua existência perdura através dos seus ideais, dos resultados obtidos. Pode-se matar um homem, mas uma idéia não se mata jamais!

Martin Luther King Jr. está presente. Depois de morto ainda fala. E o seu testemunho há de ser decantado ainda por muitas gerações e todos que dele ouvirem falar saberão que em 1968 um homem de Deus foi morto enquanto praticava a sua diaconia!

Nós cristãos, temos por afazimento nos queixar a respeito da corrupção moral da humanidade. Porém, é chegado o tempo de assumirmos a nossa responsabilidade como participantes neste “caos”. Por isso que anuímos com tal corrupção. Permita-me uma metáfora: o medicamento não tem qualquer efeito sobre a doença enquanto guardado no frasco que o contém. É esta a culpa da cristandade. Temos guardado egoisticamente o remédio, o único e eficaz remédio que é Jesus Cristo dentro do invólucro que é representado pela Igreja. Sabemos que o medicamento para ser eficiente deve ser aplicado no lugar em que a doença se manifesta.

É através da diaconia, do serviço, que a Igreja pode aplicar o remédio ativo para a cura das mazelas deste mundo. Não podemos nos preocupar apenas com a cura teórica, metafísica dos males humanos, pois enquanto assim fizermos o câncer do mal não cessa. E, num continuar surpreendente vai estendendo as suas raízes malignas em torno da Igreja e, por que na dizer, algumas vezes dentro da própria Igreja. Os cristãos precisam readquirir o seu teor de salinidade para que, testemunhando e servindo preservem a sociedade.

É preciso, a esta altura, que se evite uma má interpretação das minhas palavras. Não somos contrários à Igreja. Nós reconhecemos nela o Corpo e a Noiva de Cristo, a agência do Reino de Deus neste mundo. Somos, isto sim, pela sua revitalização. Somos por um legítimo reavivamento no melhor sentido do termo, não baseado em emoções passageiras, mas um reavivamento nas formas de serviço, de diaconia. Tão pouco somos contra o evangelismo, mormente agora às portas da Campanha das Américas. Somos por um evangelismo mais eficiente. Somos por um cristianismo autêntico onde as palavras que pronunciarmos sejam apenas uma explicação para o documento que deve ser a nossa própria vida.

Século XX, século de transição. Progresso, muito progresso. O homem busca transcender as suas limitações. O ser humanos almeja o infinito, o eterno. Ele quer ultrapassar os limites estreitos de sua existência. Ele quer deixar a área das suas potencialidades para alcançar a da realidade. Porém, triste sina, por mais que busque e lute, ele não alcança o seu objetivo. Pudera! Está buscando água em uma fonte onde água não há! Enquanto o homem estiver apenas na área das potencialidade do seu ser, ele não estará existindo realmente. A vida real só pode ser realidade quando o homem for um ser real. E o homem só pode tornar-se um ser real quando entrar em contato com as finalidades de sua existência. Quando encontrar sentido e relevância para a sua vida. Isto acontecerá quando ele atingir uma compreensão da sua personalidade como um todo – que ele é acima de tudo um ser espiritual e que a sua existência como tal somente pode ter expressão a partir de um encontro com
Deus.

É no encontro do homem com Cristo que o homem alcança o “novo ser” transcendendo assim as suas próprias limitações por tornar-se “filho de Deus”.
Cristo veio tornar possível, real, o que antes era apenas potencial. Ele veio libertar o homem dos grilhões de sua limitação, do pecado.

Esta é a nossa tarefa e Cristo bem a definiu quando comissionou: “Ser-me-eis testemunhas...”. Temos que informar aos homens de nossa época que Cristo é o meio que eles tem de tornar concretas as potencialidades imensas que eles possuem. Eis que no relógio evangélico do mundo é chegada a hora de ação. É chegado o instante em que Deus atuará em todas as partes e setores da vida humana através do testemunho e diaconia dos seus servos. Não significa isto que o sagrado venha a se tornar secular, pelo contrário. A nossa diaconia deve ter como objetivo fazer com que os homens reconheçam a presença dinâmica de Deus em todos os setores das suas vidas de tal forma que a existência humana seja considerada e interpretada sempre a partir da experiência do homem com Deus. É preciso que Deus seja trazido para a esfera da experiência humana para a esfera de uma relação pessoal do tipo “Eu-Tu” onde o “Tu” divino, subjugue o “Eu” humano! A nossa diaconia não será a proclamação de conceitos metafísicos a respeito de Deus mas, sim, uma demonstração da relação que mantemos com ele. E, se no dizer de Unamuno, filósofo espanhol, “a vida é uma luta e a solidariedade pela vida é luta e só se faz em meio à luta”.

Nós, turma “Martin Luther King Jr” trazemos ao lado dos agradecimentos a todos os que de alguma forma cooperaram para a consumação desta vitória, também um desafio: desafio para uma luta pertinaz e incessante em busca de uma diaconia vivida e dinâmica, sempre renovada, de acordo com o ideal do Divino Mestre, sabendo que:

Não pela palavra falada,
Não pela palavra escrita,
Mas pela palavra vivida,
É a “Palavra da Vida” revelada.
Aqui ficamos nós. Que Deus nos ajude.

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