Fé sem intermediários (empresário e psicanalista criticam catolicismo)

O empresário Horácio Lafer Piva, ex-presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) escreveu um artigo em que se despede da Igreja Católica. A gota dágua foi o recente episódio da excomunhão dos médicos que fizeram um aborto na menina pernambucana grávida do padastro.

Selecionei alguns parágrafos de “Contato imediato de mais alto grau”:

Parece mesmo que vem aí novo bocado de pessoas a abrir mão de alguns de seus despachantes.

 

(…) Faço minhas silenciosas orações, vez ou outra estaciono por alguns momentos numa igreja. (...) Contudo, estou no grupo dos que dispensaram a classe eclesiástica na intermediação de sua relação com Deus. Gente que passa em Sua Casa em horários nos quais não encontra seus rigorosos e sisudos zeladores, que procura distrair-se em casamentos e missas de sétimo dia com pensamentos paralelos e que os respeita como intelectuais e pessoas físicas, desde que não venham com esse discurso recorrente e cansativo no qual, com raras exceções, pontilham sermões e pregações com lugares-comuns conservadores, prosa aborrecida e absolutamente dissociada da realidade.

 

(…) Acima de tudo, impressiona a presunção de um religioso ao decidir se alguém pode ou não ter o direito a comungar com Deus -e, se couber uma existência à eternidade, onde deve ou não estar após sua morte.

 

(...)  A religião é um caminho. Ampara, questiona, responde e, da mesma forma, oferece esperanças. Mas não é uma ciência exata e deve entender a fé como algo pessoal, respeitando o livre-arbítrio e o efeito do tempo, da ciência e dos costumes. Seus seguidores não a desejam nem à frente nem atrás, mas ao lado, bem ao lado.

 

(…) Pressionados por atitudes inábeis e radicais, pedem os representantes clericais nossa opção. Pois bem, motivado assim por perguntas como "o que essa igreja pretende?", "quem é esse Deus que nessa forma desconheço?" e "onde anda o tal do perdão?", alinho-me ao lado dos médicos e daqueles que querem simplesmente fazer bem o que precisa ser feito.

(…) São manifestações que explicam a fuga de fiéis, o desprezo pela culpa e a busca por outros caminhos. O que era simples ficou complexo. Sigo em contato com o Eterno. Aliás, é dele que deve vir o meu perdão, felizmente. Mas contato direto, de casa, sem intermediação. É mais focado, mais honesto, mais real – mais humanamente divino.

No mesmo dia, o psicanalista Contardo Calligaris, cuja confissão religiosa desconheço, escreveu no mesmo jornal o seguinte:

O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, declarou que os que estivessem envolvidos na interrupção da gravidez da menina (a mãe, os médicos, os enfermeiros) fossem excomungados. Agora, o padrasto não; pois o crime dele seria mais leve. Isso, segundo o bispo, é a "lei de Deus". O bispo se confundiu: essa não é a lei de Deus, é a lei da Igreja Católica.
(…) Na modernidade, a decisão moral é um questionamento constante e, às vezes, atormentado: cada um, levando em conta as ideias de seu grupo, seus valores mais singulares, seus sentimentos, sua fé (se ele tem uma) e os fatos (caso a caso), chega a uma decisão ou a uma opinião que acredita justa. Um pouco menos trivial é lembrar que esse aspecto da modernidade é o melhor fruto da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da novidade cristã, pela qual Deus pode ser o mesmo para todos porque ele não se relaciona com grupos ou pelo intermédio de grupos, mas com cada indivíduo, um a um.
Ser moderno não significa topar qualquer parada e perder-se no relativismo. Ao contrário, ser moderno (e ser cristão) significa tomar a responsabilidade de decidir no nosso foro íntimo o que nos parece certo ou errado. Claro, é mais difícil do que procurar respostas feitas e abstratas no direito canônico. Mas, contrariamente ao que deve achar dom José, ninguém nunca disse que ser cristão (e moderno) seja fácil.

Enviei uma cartinha para a Folha, para comentar o artigo de Horácio Piva, nos seguintes termos:

Escrevi várias cartas imaginárias sobre o magnífico artigo-desabafo de Horácio Lafer Piva ("Contato imediato de mais alto grau", de 12.3.2009). Escrevo esta, sobretudo para dizer a lembrança que me provocou: os textos de Rui Barbosa. Num deles, está escrito que sua religião era "não de fábulas ineptas e senis; não de praxes farisaicas e sensualistas; não sepultada numa língua morta; não a desses pseudo-apóstolos, do paganismo infalibilista, caluniadores do evangelho, pregadores mentirosos da opressão sacerdotal". Sua religião era de igualdade, fraternidade e paz. "Por ela -- continua Rui -- o altar algum dia, e não longe, não será mais especulação; por ela as consciências não terão mais contar quedar de si senão ao Onipotente; por ela todas as crenças serão iguais perante a lei, todas as convicções respeitáveis perante os homens". Rui fala por si, como Piva idem e Martim Lutero ibidem.

Quanto ao artigo de Contardo Calligaris, de quem sou leitor há anos, concordando e discordando, sou que seu elogio à tradição judaico-cristã me surpreendeu favoravelmente.

As leituras dos artigos rebentou minhas sinapses, porque não tive como não aplicá-las ao nosso contexto. Eu me pergunto: não somos os pastores também esses intermediários dispensáveis?

Também me indago: temos levado a efeito a idéia do livre-exame da Bíblia, que é o valor que indiretamente Calligaris elogia? Não estamos mais para o controle do que para a liberdade?

Quanto a mim, tenho reafirmado que não sou sacerdote, apenas pastor. Sacerdote sou, mas de mim mesmo, como escrevi num poema.
Também quanto a mim, o livre-exame da Bíblia é tudo. Fora disso, é farisaísmo.


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