Filemon: UMA VIDA ALÉM DAS METÁFORAS

UMA VIDA ALÉM DAS METÁFORAS

Filemon

A carta de Paulo a Filemon é um magnífico resumo do Evangelho que só é evangelho quando é vivido.
Aos olhos de hoje, no entanto, parece que o apóstolo não questiona a escravidão, como se pudesse ser uma prática não condenável, como se não fosse injustiça contra Deus.
Quero lembrar que há uma dificuldade referente as características da escravidão no Império Romano antigo; alguns autores não a vêem como um atentado à dignidade humana; outros sustentam uma visão contrária. Tem prevalecido a noção que era um estado de redução do ser humano a uma condição inferior, como ocorreriam na América Moderna. O tema tem suscitado muita discussão nos últimos 30 anos. [Uma excelente revisão é oferecida por BYRON, John. Paul and the Background of Slavery: The Status Quaestionis in New Testament Scholarship Currents in Biblical Research 3: 116-139. Disponível em <http://cbi.sagepub.com/cgi/reprint/3/1/116.pdf>. Acessado em 20.5.2005.]
A partir do texto bíblico, podemos ver que a atitude paulina é revolucionária, e não reacionária.

PAULO E ONÉSIMO
Antes, devemos nos lembrar que não podemos exigir que o apóstolo Paulo tivesse a mesma compreensão que hoje nós temos acerca do tema da escravidão. Antes e depois dele, filósofos ensinavam que a escravidão era algo natural, logo aceitável. Aristóteles foi o principal deles. Nem por isto o pensamento aristotélico é condenado no seu todo, por causa deste grave deslize.
Penso que a visão de Paulo pode ser resumida no seu conselho a um novo cristão, em 1Coríntios 7.21: "Foi você chamado sendo escravo? Não se incomode com isso. Mas, se você puder conseguir a liberdade, consiga-a". Este conselho está na gênese de tratamento que deu a Onésimo.
Paulo estava na prisão em Roma, onde podia receber visitas reguladas. Num dia destes lhe chega um escravo fugitivo, cujo senhor era um cristão, amigo do apóstolo. Que dilema!
Se ficasse com ele, e muito dele precisava, poderia ser acusado de furto e ter ainda mais dificuldades com a lei. Se mandasse que continuasse fugindo, agora para outro lugar, poderia ser igualmente incriminado, se Onésimo, preso e interrogado, viesse a delata. Se devolvesse o escravo ao seu senhor, este poderia receber uma punição severa, incluindo a morte. Segundo o sistema legal romano, o escravo era um objeto que podia ser vendido, punido e morto. Ele não podia casar. Se houvesse união, esta não seria legalizada. Se tivessem filhos, eles não seriam reconhecidos. O escravo não podia ter propriedades; se as comprasse, seriam propriedades do seu senhor.
Não sabemos que tipo de trabalho fazia Onésimo. Se era escravo por ser filho de uma escrava, por ter sido aprisionado numa guerra ou por se ter recusado a prestar serviço militar, ou se vendera a si mesmo para pagar dívidas ou se fora reduzido à escravidão por mal comportamento. O fato é que era um escravo fugitivo. E como tal não podia ser recebido ou protegido; quem o fizesse cometia furto. Também não sabemos como se tornou escravo de Filemon; se foi, como a maioria, comprado num leilão.
Não sabemos que tipo de senhor era Filemon. Mas sabemos que a lei lhe garantia o direito de persegui em qualquer lugar. Ele podia até lançar mão dos serviços profissionais dos fugivarii e marcá-los a ferro (o estigma) na testa, com a letra "F" (de fugitivo) para nunca mais fugir, ou mesmo castigá-lo de outras formas. [Para a condição do escravo no império romano, veja SMITH, William Servus Disponível em <http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/SMIGRA*/Servus.html>. Acessado em 20.5.2005.]
As fugas eram freqüentes na Roma antiga. Os proprietários de escravos ofereciam recompensas valiosas para denúncias. Havia até um grupo de profissionais especializados (os fugivarii) em recupera. O imperador Marco Aurélio fixou leis obrigando as autoridades locais a ajudarem na captura dos fugitivos. Os que fossem recuperados eram ameaçados com penas duríssimas, podendo ser açoitados, algemados, recolhidos no ergastulum (a prisão dos escravos), marcados com fogo ou crucificados. Para evitar os castigos, o fugitivo podia buscar a intermediação de amigo para intermediar em seu favor. Talvez tenha sido isto que Onésimo tenha feito.
Talvez Paulo conhecesse Onésimo tanto quanto a Filemon, mas ele não nos diz. O que sabemos é que Onésimo vai ao seu encontro. Por que fugiu? Não sabemos. Cometera uma falha grave? Não sabemos. Sabemos que, encontrando-se com Paulo (será que o teria conhecido antes e foi ao seu encontro em busca de ajuda?), ali encontrou a salvação em Jesus Cristo por meio da pregação de Paulo. Ele foi regenerado na prisão (verso 10).
O que sabemos é que Paulo escreve a Filemon e, ao faze, mostra o Evangelho em ação, Paulo demonstra o que viver pela graça. Ele devolve Onésimo a Filemon, morador de Colossos.
Ele devolve Onésimo, acompanhado de uma carta a Filemon, na qual pede: "Meu amigo e irmão Filemon. Estou enviando Onésimo de volta. Ele mesmo quer voltar, para ser restituído a você. Receba-se como se recebesse a mim mesmo, eu um livre em relação aos homens, mas escravo de Jesus. Não faça isto por sua amizade por mim mas por seu amor a Jesus. Não o receba como escravo, mas como irmão, como irmão seu eu sou. Talvez sua fuga tenha trazido prejuízo para você. Prepara a conta; quando for visita e ficar naquele quarto que você tem para mim, pagarei centavo por centavo. Faço questão de pagá-lo. Fique com esta promissória em branco, que eu resgatarei quando nos reencontrarmos. Se você agir assim, ficarei animado por saber que em Cristo não há escravo, nem livre. Esteja certo: o novo Onésimo vai ser muito útil para você ainda. Receba-o no amor de Jesus."

Imagine que você seja Filemon. Um dos seus escravos foge. Você procura o quanto pode. Eis que um dia ele entra na sua propriedade. Os outros escravos vêm avisar. Todos imaginam o castigo que virá. O escravo chega segurando uma carta na mão. Você abre a carta, É de um grande amigo. O amigo lhe pede para receber o fugitivo como se o recebesse. O amigo lhe informa que vai pagar todo o prejuízo causado pelo fugitivo. O escravo era para ser recebido como irmão.
Que escravidão é esta? Paulo não discute a teoria da escravidão. Paulo propõe uma prática para a escravidão e, nesta prática, vinda do Evangelho, todos são irmãos.
Imagine que você seja Onésimo. Cansado da vida escrava em Colossos, você foge para a capita. No caminho se lembra de um pregador cristão que esteve na casa do seu senhor. Então, você procura por toda a Roma e encontra o pregador e vai visita e lá encontra a verdadeira liberdade que há em Cristo Jesus, salvador e libertador do mundo. Você abraça a fé e deseja voltar para dizer a Filemon que é uma nova pessoa. Você diz isto ao pregador, que faz uma carta, uma carta que o ajudaria também no caminho de volta caso fosse descoberto. Chega a Colossos e vai para a propriedade do antigo senhor. Seu coração bate forte: "como serei recebido?" Com o coração em disparada mas a confiança em Jesus também acelerada, você entra na propriedade e entrega a carta a Filemon. O antigo senhor lê a carta, chora de emoção e abraça você, recebendo-o como irmão.
Que escravidão é esta? Paulo não discute a teoria da escravidão, mas acaba com ela em termos práticos. Escravo não é irmão, mas Filemon e Onésimo são irmãos.


UMA METÁFORA
A carta de Paulo a Filemon extrapola o primeiro século e chega ao nosso. Ela, repito, é uma resumo do Evangelho, esta graça que vem do amor, graça de Deus que vem do amor de Deus, graça que ministramos uns aos outros por causa do amor. Evangelho é graça que vem do amor.
"Evangelho! Uma expressão que produz pensamentos de grande alegra, felicidade e paz a todos os homens e mulheres que desejam compreender o amor de Deus. Evangelho! Sistem de pensamento que mudou a civilização, influenciou códigos legais e moldou nações. Evangelho! Palavra que bem resume a historia completa que chama homens e mulheres para a graça." [KACHELMAN, Jr. John L. The Gospel in 25 verses: the Book of Philemon. Disponível em <http://www.christianlibrary.org/authors/John_L_Kachelman_Jr/philem4.htm>. Acessado em 18.5.2005.]
Evangelho é perdão pleno, é exortação ao exercício da graça, é a busca da reconciliação.
A história de Onésimo é uma metáfora de cada um de nós.
Até que aceitamos Jesus como nosso Senhor, vivemos como Onésimo, fugitivos de nosso verdadeiro Senhor, Senhor que morreu em nosso lugar para que ficarmos longe da culpa pela fuga.
Até que reconheçamos que estamos condenados e que podemos experimentar a liberdade, para a qual fomos feitos, não buscamos o advogado que nos defenda. Onésimo encontrou um defensor porque reconheceu que estava condenado. Neste estado, vivia uma vida trágica. Jesus Cristo é este mediador. "Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus" (1Timóteo 2.5).
Paulo se pôs no lugar de Onésimo (verso 18). Paulo recomendou a Filemon a aceitar por amor o escravo arrependido. O que Paulo fez por Onésimo, Jesus deseja fazer por nós. Devemos fazer como Onésimo e nos arrepender de nossos pecados.
O que Onésimo teve que fazer para evitar o castigo? Nada.
O que precisamos fazer para evitar o castigo que merecemos por nossa rebelião contra Deus? Nada. Apenas receber o perdão que a graça de Jesus oferece. O perdão não vem pelas obras para que ninguém se glorie de si mesmo (Efésios 2.9).
Onésimo fez o que devemos fazer: voltar. Assim como ele voltou para Filemon, devemos voltar para Deus. Ele nos espera para tornar pessoal a graça universal dEle.
Podemos viver como escravos fugitivos de Deus ou como pessoas restauradas, adotadas na família de Deus. [KACHELMAN, Jr. John L. The Gospel in 25 verses: the Book of Philemon. Disponível em <http://www.christianlibrary.org/authors/John_L_Kachelman_Jr/philem4.htm>. Acessado em 18.5.2005.]
Esta é a graça que recebemos.

GRAÇA RECEBIDA PARA SER GRAÇA MINISTRADA
Evangelho é a graça que recebemos. Evangelho é a graça que ministramos.
Paulo, ao devolver Onésimo com a carta, ministrou graça que vem do amor. Eis como devemos fazer.

1. A graça que vem do amor é ministrada espontaneamente e não de modo forçado.
Paulo escreve: "Não quis fazer nada sem a sua permissão, para que qualquer favor que você fizer seja espontâneo, e não forçado (verso 14).
Paulo reconhecia que a salvação que recebera era um presente de Deus para a sua vida, que, antes, vagueava, mas agora seguia no rumo certo.
A não-obrigatoriedade de manifestar a graça tem sido a tragédia dos cristãos e do cristianismo. Aqueles que se esquecem, por algum tempo ou para sempre, que a graça recebida é graça para ser ministrada, na verdade não entendem o que é a graça e perdem o melhor dela. Paulo não quis impor a Filemon o encargo de ministrar graça, mas esperava isto dele. Deus não nos impõe semelhante obrigação, mas espera que ministremos graça, como seus parceiros.

2. Para ministrar a graça que vem do amor, precisamos estar dispostos a pagar um preço, se houver um preço.
Paulo escreve: "Gostaria de manter [Onésimo] comigo para que me ajudasse em seu lugar enquanto estou preso por causa do evangelho" (verso 13). "Se ele o prejudicou em algo ou lhe deve alguma coisa, ponha na minha conta" (verso 18).
O apóstolo fez como o chamado bom samaritano, que acolheu uma vítima da violência, caído e ferido ao chão, levou-o ao hospital e se dispôs a pagar a conta, custasse o que custasse.
Recebemos pela graça a graça de Jesus, porque Ele pagou o preço. Ministramos a graça por causa desta graça e, muitas vezes, esta ação pode implicar num preço a ser pago, financeiro ou existencial.
Quem se dispõe a ministrar a graça precisa saber que vai ter que desembolsar dinheiro, gastar tempo e, talvez, receber as incompreensões ou mesmo tentativas de exploração.

3. A ministração da graça implica em envolvimento.
Paulo escreve: "Eu, Paulo, escrevo de próprio punho" (verso 19).
Talvez marcados por alguma decepção, alguns cristãos se esquecem de ministrar a graça. Alguns chegam até a desembolsar dinheiro, mas não mais que isto. O envolvimento é zero. Dinheiro sem envolvimento, sem interesse, sem desejo efetivo de ver mudanças, é graça pela metade.
Paulo não mandou uma carta assinada por algum assessor. Paulo, que geralmente contava com o auxílio de um colaborador, provavelmente por ser míope, para escrever seus textos, assinou pessoalmente, numa indicação de seu compromisso pessoal.

4. Quando ministramos a graça, não devemos visar qualquer benefício.
Paulo escreve: "Sim, irmão, eu gostaria de receber de você algum benefício por estarmos no Senhor. Reanime o meu coração em Cristo!" (20).
Somos, seres humanos, movidos a recompensas. Paulo também queria uma, ao devolver Onésimo: queria que a generosidade de Filemon se expressasse e isto lhe trouxesse alegria ao coração. Esta era a motivação de Paulo, que queria fosse a motivação de Filemon: alegrar-se em Cristo.
Em outras palavras: Paulo não esperava nenhuma recompensa, nem aqui nem na vida futura. A graça vem do amor. Ponto.
Não ministramos graça para receber mais graça. Ministramos graça porque recebemos a graça.

Eis o que Deus espera de nós: que aprendamos também a nos distinguir nas boas obras a favor dos necessitados, para não nos tornarmos infrutíferos (Tito 3.4).

Comentários   

 
+1 #5 PastorGuest 18-07-2013 10:40
Querido Israel Belo.
Desejo antes de mais nada, lhe agradecer por todos e cada um de seus textos. Sempre jóias preciosasa. E, com alguma liberdade, dizer-lhe: como é "Belo" seu coração.
Neste fim de semana, irei pregar sobre Filemom. E, peço-lhe encarecidamente a permissão de citar seu texto em minha mensagem, com os devidos créditos, evidentemente. Mais uma vez, expresso minha gratidão por sua vida e ministério. O brotar das palavras de seu coração, abençoam o nosso a cada dia. Deus o abençoe sempre. Pasrtor Nassiff. First Baptist Church of Orlando.
 
 
+2 #4 Comentando no Espirito.Guest 15-03-2012 00:57
Bendigo ao Senhor por esta belissíma dissertação da Epistóla de paulo a Filemón.
Parabéns meu irmão.
Deus ricamente te abençoe!!
 
 
+1 #3 agradecimentoGuest 20-08-2011 08:44
Agradeço a Deus por pessoas como vc. Continue postando... hoje fui muito abençoada com este tema.
 
 
+2 #2 indignação!!!!! !!!!!!!!!!!!!!! !Guest 05-01-2011 16:15
Quero incentivar aqui o autor do artigo com a minha indignação os comentarios descritos acima( # mal escrito — 2009-12-05 17:46
legalzinho, mas ta mal escrito... tem que caprichar mais.

O Ser que deixou este comentario não vou te chamar de amigo nem de irmão pois sei que ainda não é, mais vou lançar sobre você uma palavra profética" assim diz o Senhor para a sua vida , voce ainda se dobrara diante do senhor pois diante dele todo joelho se dobrara e toda lingua confessara que ele é o Senhor". aprenda a ver as obras do espirito como tal e não apenas como informativo.
 
 
-2 #1 mal escritoGuest 05-12-2009 18:46
legalzinho, mas ta mal escrito... tem que caprichar mais.
 

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