Chácara Jr.

Salmo 38: PARA QUE HAJA SAÚDE

PARA QUE HAJA SAÚDE
Salmo 38
Pregado na Igreja Batista Itacuruçá, em 24.11.1999
 
1. INTRODUÇÃO
O poema, escrito há cerca de três milênios, retrata uma experiência muito pessoal. Seu autor rememora uma série de erros cometidos e pede perdão a Deus. No entanto, nesta noite, quero usar este salmo para falar da saúde, tanto aos pacientes quanto aos profissionais da saúde. Nele encontramos muito acerca da natureza humana. É por isto que vou empregá-lo.
Vou me permitir a licença de fazer diferentes leituras do mesmo texto, cujo autor, seja eu bem claros, só teve uma intenção, que não podemos perder de vista: pedir perdão a Deus. Vou fazer uma leitura multiprofissional, como por vezes acontece num hospital, em que vários especialistas se reúnem em torno de um paciente para diagnosticar sua doença ou para indicar o melhor tratamento para o seu caso.
Como não sou do campo da saúde, peço já desculpas pelos equívocos, especialmente terminológicos, que cometer.

2. LEITURA SEMIOLÓGICA
Podemos, com muita liberdade hermenêutica, imaginar o poeta diante de Deus, confessando os seus pecados. Sua confissão é uma verdadeira anamnese, embora ele nunca tenha assistido a uma aula de semiológica médica.

2.1. Retrato dos cuidados necessários
Se tomarmos as imagens ao pé da letra, notaremos várias doenças, as quais exigiriam vários profissionais para delas cuidar. Se estivesse num hospital, ele seria encaminhado a diferentes profissionais:
. a um clínico geral, porque não havia saúde em nenhum dos seus órgãos (v. 3a)
. a um ortopedista, porque seus ossos estavam fracos (v. 3b)
. a um dermatologista, porque sua pele estava cheia de feridas (v. 5)
. a um psiquiatra, porque  ele se achava um louco (v. 5b)
. a um psicólogo, porque estava aflito e sem razão para viver (v. 6)
. a um urologista, porque seus rins ardiam (v. 7a)
. a um cardiologia, porque seu coração batia descontroladamente (v.10a)
. a um oftalmologista, porque sua visão falhava (v. 10c)
. a um otorrino, porque perdera a audição (v. 13a)
. a um fonoaudiólogo, porque não conseguia mais falar (v. 13b)
. a um enfermeiro, para lhe ministrar a medicação necessária,
. a um biólogo, porque precisava se submeter a uma série de exames laboratoriais
. a um radiologista, porque seus ossos precisam ser radiografados,
. a um fisioterapeuta, porque não conseguia andar
. a um professor de educação física, porque precisava de exercícios que fortalecessem seus músculos
. a um nutricionista, porque precisava se alimentar adequadamente

Possivelmente ele precisasse de outros, que não consegui divisar no texto. Fica aí um exercício para os outros profissionais. Por exemplo, não vi menção aos dentistas. [Alguém viu alguma outra patologia?]
Como o poeta, todos podemos precisar dos cuidados dos vários profissionais da saúde. O Salmo pode ser visto, então, como a perspectiva de um paciente diante da falta de saúde. Talvez ele não tivesse contraído nenhuma das enfermidades aqui referidas, mas era como se as tivesse, porque era assim que ele se sentia. O que ele sentia era tão forte que seu ser inteiro padecia. Não é precisamente isto que acontece conosco?

2.2. Um retrato dos que cuidam
Com a mesma liberdade interpretativa, podemos ver no texto uma descrição de como se encontram os que atuam no campo.
Diante da situação dos serviços de saúde no Brasil, todos os profissionais sérios, neles envolvidos, se sentem como o poeta: "encurvados", "muito abatidos" e "lamentando o dia todo" (v. 6).
Encurvados diante da excessiva carga de trabalho, em que se corre daqui para ali, verdadeiros profissionais-táxi; muito abatidos pela impotência da ação necessária mas impossível em função das circunstâncias que se impõem; lamentando o dia todo, fazendo da profissão conquistada com esperança uma profissão de desilusão e desânimo.
Encurvados, muito abatidos e lamentando o dia todo também diante do sofrimento alheio que tentam minorar, as vezes sem conseguir, ou pela impotência dos conhecimentos sobre a enfermidade ou pela falta de condições nos hospitais em que trabalham ou pelo diagnóstico tardio.
Encurvados, muito abatidos e lamentando o dia todo também diante da convivência com os padrões do mal, que imperam nas profissões, inclusive nas profissões da saúde, onde há também indiferença pelo sofrimento alheio, onde há artifícios para o aumento dos ganhos, onde há verdades que não podem ser ditas, onde há mentiras que têm de ser ditas.

O Salmo, portanto, pode ser visto como um retrato dos enfermos e um retrato dos que cuidam dos enfermos. O Salmo pode ser lido assim, mas ele diz muito mais.


3. LEITURA TEOPSICOSSOMATOLÓGICA
O Salmo é uma descrição poética dos sentimentos nada poéticos do seu autor.
Essa descrição nos alcança a todos e pode ser que alcance alguém aqui, profissional da saúde ou paciente real ou potencial.

3.1. Sentimentos diante de Deus
O salmista se sentia rejeitado por Deus. Ele se sentia objeto da ira de Deus. Tudo o que lhe estava acontecendo e que parecia que ia afogá-lo (v. 4) lhe pesava como se Deus estivesse com raiva dele. Nada inquieta tanto o coração de uma pessoa quanto o sentimento da ira de Deus (Matthew Henry).
Seu relacionamento com Deus estava enfermo; por isto, toda a sua vida estava enferma. Ele estava tão enfermo que a descrição que fez parece tirada de um tratado de clínica geral. Todos sabemos que não podemos dividir o nosso corpo, a não ser didaticamente e para fins de um tratamento específico. Nós somos um todo e ninguém nos precisa falar da psicossomática. Cada um de nós sabe o que sente fisicamente quando está diante de uma emoção não resolvida! Cada um de nós sabe quanto dói o estômago quando tomamos um remédio para a dor-de-cabeça!
O poeta estava distante de Deus e se sentia abandonado por Ele. Sua percepção estava correta no sentido de que, distante de Deus, não podemos experimentar saúde, mesmo que conheçamos a etiologia de todas as nossas enfermidades.

3.2. Sentimentos diante de si mesmo
Faltava ao salmista uma perspectiva para viver.
Diante das lutas, ele se sentia derrotado de antemão (v. 6). Ele se sentia como carregando um fardo às costas que não podia carregar. Ele estava prestes a demoronar diante daquele peso todo (v. 4b). Sua vida era ficar pelos cantos, chorando e gemendo.
Entre as muitas palavras que usa, há uma muito forte: tristeza.


3.3. Sentimentos diante dos seus semelhantes
Os relacionamentos sociais do salmista também estavam enfermos. Ele não tinha um amigo sequer, nem mesmo entre seus parentes (v. 11). Para todos os lados que olhava só via cilada (v. 12), indiferença, inveja (v. 16) e ódio (v. 19).
Era assim que ele se sentia. É assim que, por vezes, nos sentimos.
Não é possível (basta olharmos para nossas histórias pessoais) que ninguém tenha interesse em nos ajudar, mas é assim que nos sentimos, quando o peso da vida parece nos afogar.


4. APLICAÇÃO DAS LEITURAS

4.1. A causa
A causa do sofrimento do autor era seu afastamento de Deus. Ele abandonara Deus e agora se sentia abandonado por Ele. Quando nos sentimos assim abandonados, o peso da vida parece insuportável. Sem Deus, e sua companhia, não dá para suportar o peso da vida. Não há remédio que dê jeito à doença da distância de Deus.
Isto não quer dizer que todo sofrimento decorra necessariamente de causas espirituais. Aliás, há um conflito entre algumas manifestações religiosas e as profissões da saúde. Em sua maioria, as doenças são manifestações de ordem biológica. Alguns credos, no entanto, querem ver em tudo a presença de Deus e mesmo de espíritos malignos. Num país com saúde enferma, as igrejas que mais crescem são aquelas que "repreendem" os espíritos das doenças... Essas visões reducionistas geram um profundo e correto ceticismo por parte daqueles que não abdicam do uso da razão.
Neste caso, no entanto, pela descrição apresentada, estamos diante de uma série de patologias provocadas pelo pecado pessoal do autor, que as profissões da saúde não podem descartar ou reduzir.
O salmista sabia da causa do seu problema. Por isso, ele escreveu o poema, no qual põe na presença de Deus "todos os seus desejos" (v. 9). Ele apresenta a Deus toda a sua ansiedade e espera que Deus o atenda (v. 15b). Este é o Deus do salmista; este é o nosso Deus, Deus que está perto de todos quantos chamam pelo seu nome, não importa o peso da vida.
Não há porque nos sentirmos abandonados por Ele, se fomos nós que o abandamos. Ele está de plantão, não de 24 ou 72 horas, mas plantão eterno para nos socorrer.

4.2. O relacionamento
O salmista também se sentia abandonado por seus amigos, como nós também.
Sabemos, no entanto, que a essência do ser humano é o egoísmo. Talvez seja por isto que o salmista deposite, e nos ensina a fazê-lo, toda a sua esperança em Deus. É interessante que o verbo esperar, o único em que ele revela a sua confiança em Deus, aparece no contexto dos relacionamentos.
Nossos relacionamentos carecem de uma visão correta acerca da natureza humana, da natureza das outras pessoas e da nossa própria natureza... Quem trabalha em equipe sabe o que estou dizendo. Quando você precisa trocar um plantão, é quando o seu colega também tem alguma necessidade e não pode lhe ajudar. Quando você precisa de um ombro para chorar, seu amigo também precisa...
Nossos relacionamentos carecem de nossas orações, para que superemos nossas próprias naturezas... Precisamos deles, mas não podemos nos iludir com Eles. Se depositamos nossa confiança em Deus, Eles nos ajudará a viver bem uns com os outros.

4.3. A tristeza
Diante do seu problema, corretamente diagnosticado, o salmista sente tristeza.
No entanto, esta é uma tristeza positiva. O poeta estava triste não porque se sentisse abandonado por Deus, mas porque reconhecia que abandonara a Deus pelo seu pecado. A propósito, a maior tristeza não é pecar, porque este verbo faz parte da conjugação humana, mas não lamentar o pecado. A maior tristeza é a indiferença diante do próprio pecado. A maior tristeza é o prazer em continuar pecando. Muitos vivemos assim, até abonando os nossos pecados, como se não fossem pecados...
O salmista só queria uma coisa, porque ele sabia que só esta coisa lhe traria a paz ao coração: ele queria ser perdoado. Este é o socorro que ele pede (v. 22).
O salmista olhava para si mesmo e via o veredito: condenado. O salmista olhava para Deus e pedia: perdão, Senhor. Nós olhamos para Deus, depois de pedir a sua justificação, e podemos ver em nosso próprio peito: PERDOADO.
Na língua espanhola, quando alguém paga uma conta, bate-se um carimbo: CANCELADO. Em língua portuguesa, vem outra palavra: PAGO.
Se você já foi perdoado por Deus, todas as suas dívidas foram canceladas. A mão de Deus já não lhe pesa mais.
Se você ainda se sente como o salmista, como o salmista confesse seus pecados diante de Deus e como o salmista espere pelo seu perdão. O Senhor é justo e cancelará todas as suas dívidas diante dEle para sempre.


5. CONCLUSÃO/CONVITE

(ao público em geral)
Não há porque nos sentirmos abandonados por Deus, porque nós somos objeto do seu amor. Por meio do seu filho, ele nasceu e morreu para que tivéssemos saúde plena, vida plena. O oferecimento deste tipo de vida está disponível a todos quantos quiserem. Basta orar como o salmista: confessando os pecados e reconhecendo que só pode encontrar paz nEle.
Há alguém aqui que, sentindo-se doente ou abatido como o salmista, quer viver sob o amparo e socorro de Deus. Se é assim, disponha-se a viver em função dele. Venham a ele todos os que estão abatidos, pesados, cansados, doentes, que Ele a todos socorrerá e aliviará, como fez com o salmista e com muita gente aqui.
Pode ser que você, mesmo sendo um crente, perdeu a alegria da salvação e viva afogado na tristeza e na falta de sentido. Renove hoje seu pacto com Deus.. Peça o seu socorro e venha ao encontro dEle com a intenção de jamais o abandonar.

(aos profissionais da saúde)
Se é verdade que nós precisamos do auxílio dos profissionais da saúde, também o é que, para nos ajudar, eles precisam do apoio de Deus. Eles também precisam de saúde, de saúde biológica, mas também de saúde espiritual.
Alguns deles talvez se sintam como o salmista, desanimado e cansado. Alguns talvez até já se esqueceram do juramento que fizeram. Alguns talvez, quando entraram para a profissão, tinham o projeto de servir a Deus por meio da sua ciência e talvez alguns tenham esquecido o projeto original.
Nossa oração é para que Deus fortaleça os profissionais da saúde, a fim de que não esmoreçam. Ore sempre a Deus neste sentido.
Nossa oração é para que Deus abençoe os profissionais da saúde, a fim de que não esqueçam que sua profissão é não só um meio de subsistência e realização, mas também um dom, um dom de Deus para os outros. Ore sempre a Deus neste sentido.
Nossa oração é para que Deus inspire os profissionais da saúde, a fim de que atuem segundo o modelo do Médico dos médicos. Deus é profissional da saúde por excelência.

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