Introdução à Bíblia, 2: A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA, 1

Aula 2:

A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA 

Pergunta orientadora: Como posso aceitar que a Bíblia é a Palavra de Deus, se foi escrita por homens? 

 

PARTE 1
UM LIVRO QUE IMPORTA EM DECISÃO
 

A dificuldade de recebimento da Bíblia como Palavra de Deus tem três vetores: sua mensagem (tida como contraria aos ditames da razão), a humanidade de seus autores (naturalmente falíveis) e a natureza do material (visto como não confiável). 

 

O DESAFIO DA MENSAGEM BÍBLICA 

O Deus que emerge da Bíblia depende dos pressupostos do seu leitor.
Se, para o leitor, a razão é rainha plena, como aceitará ele a idéia de que o temor (reverência) do Senhor é o princípio (caminho) da sabedoria?

Se, para o leitor, não pode haver verdade absoluta, porque cada um tem o direito de chamar de verdade o que acha que é, como concederá ele que haja um livro inspirado por Deus e com a capacidade de levar alguém "a salvação mediante a fé em Jesus Cristo" (cf. 2Timóteo 4.15, 16)?

Se, para o leitor, a moralidade é produto do consenso entre seres humanos de determinada comunidade ou povo, como tomará ele os mandamentos de Deus, apresentados na Bíblia, como absolutos e atemporais para si e para os povos?

Se, para o leitor, o homem é capaz de encontrar seu próprio caminho para a felicidade, como admitirá ele a idéia de que todos os seres humanos carecem de salvação e de que há um Salvador único para toda a humanidade (Jesus Cristo)?
 

 

No entanto, se, para o leitor, a razão não é perfeita, porque humana, logo passível de erro, e porque condicionada culturalmente (os argumentos nazistas, por exemplo, eram todos racionais, mas todos hoje os achamos irracionais, por seus resultados e tambem porque perderam...), faz sentido aceitar a idéia, proposta na Bíblia (Salmo 19.9, Provérbios 1.7, 14.27, 19.23, 2Coríntios 10.5) de que a razão é aperfeiçoada (não negada) pela fé.
Se, para o leitor, Deus existe e se comunica, Ele usou os recursos disponíveis (revelação e inspiração) para orientar o ser humano em sua caminhada, resultando num Livro totalmente atípico que, embora escrito ao longo de séculos e por distintas pessoas em diferentes comunidades e culturais, mantém uma unidade.

Se, para o leitor, as evidências da incompetência humana para a construção de uma sociedade justa são claras, em função dos instintos, desejos e interesses, tanto individuais quanto coletivos (como demonstrados na guerra), é prova de sabedoria tomar os mandamentos de Deus, apresentados na Bíblia, como sendo os seus absolutos para nós, independentemente de condicionantes temporais ou regionais (o que demanda separar princípios, atemporais e a-regionais, e normas (válidas mas extinguiveis no tempo e no espaço).

Se, para o leitor, Deus existe e se relaciona amorosamente com os seres criados, é admissível que Ele tenha enviado, como relata a Bíblia, um Salvador singular (plenamente divino, plenametne humano), como Sua providëncia para o resgate da dignidade humana.
 

O QUE FAZEMOS COM O QUE LEMOS
Uma prova de que precisamos de um Salvador (como admitiu em 1966 o filósofo Martin Heidegger: "A filosofia não poderá conseguir uma mudança imediata do atual estado do mundo. Isto não vale apenas para a filosofia, mas para todos os sentidos e costumes humanos. Somente um Deus ainda pode nos salvar. A única alternativa que nos resta é preparar, no pensamento e na poesia, uma disposição para a aparição deste Deus, ou aceitar a ausência deste Deus no declínio; aceitar que estamos sucumbindo na presença deste Deus ausente". Entrevista reproduzida no jornal Valor Econômico, de 28.9.2001, caderno Fim de Semana, p. 5) é o que fazemos com a Bíblia, ao lê-la.

Nossos instintos, desejos e interesses são muito fortes, podendo condicionar nossas práticas, mesmo que a Bíblia nos sugira outras perspectivas. Muitas vezes a Bíblia é julgada pelo que os seus leitores fazem com ela.
Um caso emblemático é da escravidão, que (no caso, de negros) foi lamentavelmente justificada assim, por alguns cristãos do século 19:
. "A escravidão foi estabelecida por decreto do Todopoderoso Deus, sancionada na Bíblia, em ambos os Testamentos, de Gênesis a Apocalipse" (Jefferson Davis, presidente dos Estados Confederados da América)
. "Não um verso sequer na Bíblia inibindo a escravidão, mas muitos regulamentando-a. Concluímos então que ela não é imoral" (Rev. Alexander Campbell)
. "O direito de manter escravos está claramente estabelecido nas Sagradas Escrituras, por preceito e por exemplo". (Rev. R. Furman)  A condenação de Cão marcou seus descendentes africanos. A mão do destino uniu sua cor e destino. O homem não pode separar o que Deus ajuntou (James Henry Hammond) (Ontario Consultants on Religious Tolerance.
Slavery in the Bible. Disponível em http://www.religioustolerance.org/sla_bibl.htm).
Como se vê, nos séculos 18 e 19, nos Estados Unidos, "o texto de Gênesis 9.18-27 transformou a maldição de Cão no mito fundamental da degradação coletiva, demonstrada como uma razão divina para a condenação de geração de pessoas de pele escura da África à escravidão" (LEE, Felicia R. From Noah's Curse to Slavery's Rationale. Disponível em http://www.racematters.org/noahscurseslaverysrationale.htm

Hoje podemos nos perguntar como se fez isto com a Bíblia, se nela lemos que em Cristo não há livre, nem escravo, e se vemos o preceito e o exemplo do apóstolo Paulo ao falar de Onésimo a Filemon.

A lista de equívocos (crimes até) cometidos em nome de Deus e de Palavra não é pequena, podendo ser empobrecida com as atitudes manifestas contras as mulheres (tidas biblicamente como inferiores, não podendo, por exemplo, em certos círculos, ser ordenadas ao ministério pastoral), a defesa do Estado moderno de Israel (que é idolatrado como ainda povo eleito e como se o Messias Jesus já não tivesse vindo) independentemente das razões de seus ataques aos palestinos e toda a forma de violência usada para "defender" Deus (embora seja para defender territórios e ideologias próprios).

Nossos instintos, desejos e interesses são muito fortes, podendo condicionar nossas práticas, mesmo que a Bíblia nos sugira outras perspectivas.

Deus não pode ser responsabilizado pelo que fazem os que crêem (até mesmo sinceramente) nEle.
A Bíblia não pode ser responsabilizada pelo que fazem os que a lêem (mesmo sinceramente). É por isto que a Bíblia deve ser lida com a coragem, coragem para confrontar nossa ideologia.  

 

Israel Belo de Azevedo