Introdução à Bíblia, 3: A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA, 2

A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

Pergunta orientadora: Como posso aceitar que a Bíblia é a Palavra de Deus, se foi escrita por homens?
A dificuldade de recebimento da Bíblia como Palavra de Deus tem três vetores: sua mensagem (tida como contraria aos ditames da razão), a humanidade de seus autores (naturalmente falíveis) e a natureza do material (visto como não confiável).

PARTE 2
TESTEMUNHOS INTERNOS SOBRE A INSPIRAÇÃO


1. Temos que ser honestos: a Biblia não fala sobre a Bíblia, embora fale da Palavra de Deus. No entanto, sendo ainda honestos, o Novo Testamento fala sobre o Antigo Testamento e o considera como Palavra de Deus.
 
2. O Antigo Testamento refere-se à palavra de Deus como a Sua vontade expressa e capaz de orientar a vida do crente (Salmo 119.105). Um dos provérbios é verdadeiro, ao dizer, neste contexto: “Cada palavra de Deus é comprovadamente pura” (Provérbios 30.5) e também reta (Salmo 33.4). Essa vontade era comunicada através de revelações diretas a pessoas, em contextos específicos, sobretudo aos patriarcas (Gênesis 15.1, Êxodo 9.20, Números 36.5, Josué 8.6), aos líderes do povo (1Reis 6.11) e sobretudo aos profetas (1Samuel 15.10, (1Samuel 9.27, 1Reis 12.22, 1Crônicas 17.3, Isaías 1.10, Isaías 66.5, Jeremias 1.4, Ezequiel 38.1, Miquéia 1.1, Ageu 1.1, Zacarias 1.1, dentre tantos outros).
 
3. O termo, portanto, é usado num sentido amplo, mas não inclui, por razões óbvias, a idéia de um texto organizado. A palavra de Deus é, assim, uma vontade que se cumpre na história (Salmo 105.19), organizando-se no conjunto dos oráculos de Deus, as suas determinações (Esdras 1.1), as falas específicas, as manifestações da natureza (Salmo 147.18) e os mandamentos, inicialmente orais e depois escritos (Números 15.31, Deuteronômio 5.5). Deus fala. O Antigo Testamento é o registro desta comunicação.
 
4. Este registro, segundo o cânon judeu e protestante e católico oriental (ortodoxo), está disposto ao longo de 66 livros, escritos em hebraico, embora com breves seções em aramaico: Esdras 4.6-6.18, 7.12-26, Daniel 2.4-7.28, Jeremias 10.11; duas palavras em Gênesis 31.17; alguns aramaísmos em Juízes 5).
 
5. A Bíblia católica romana contém outros sete livros (Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico -- de ben Sirac – e Baruque), escritos em aramaico e não constantes da TaNaKh (Torá ou Pentateuco, Nevi'im ("Profetas") e Ketuvim ("Escritos" ou todos os outros). O cânon (lista de livros sagrados) protestante para o Antigo Testamento segue o cânon hebraico, estabelecido entre os séculos IV e II antes de Cristo. Para o Novo Testamento, que não cita nenhum apócrifo, não há diferenças entre os cânones católico e protestante.
Eis a lista dos livros segundo a Tanakh:
 
TORAH (Pentateuco)
Gênesis
Êxodo
Levítico
Números
Deuteronômio
 
NEVI´IM (Profetas)
Josué
Juízes
Samuel
Reis
Isaías
Jeremias
Ezequiel
Oséias
Joel
Amós
Obadias
Jonas
Miquéias
Naum
Habacuque
Sofonias
Ageu
Zacarias
Malaquias
 
KETUBIM (Escritos)
Salmos
Provérbios

Cântico dos Cânticos
Rute
Lamentações
Eclesiastes
Ester
Daniel
Esdras-Neemias


 
 
6. Entre os seculos III e I setenta colaboradores (daí Septuaginta) traduziram a Tanakh para o grego. Jesus e os apóstolos liam a Tanach em hebraico. Os cristão de fala grega usavam a Tanach da Septuaginta.

7. Jesus lia as Escrituras, tendo usado trechos do Antigo Testamento (Deuteronômio 8.3, 6.13 e 6.16) em seus diálogos com Satanás (Lucas 4.1-13). Ele começou publicamente Seu ministério com a leitura de um texto do profeta Isaías, que Ele interpretou como se referindo a Si mesmo (Lucas 4.17-21). Em sua defesa, naquele momento, citou histórias de Elias e Eliseu (Lucas 4.25-27). Seus argumentos vinham das Escrituras (Mateus 21.42), mostrando uma profunda intimidade com a Bíblia disponível à época. Jesus chega a compará-las ao poder de Deus (Mateus 22.29). Sua vida parecia seguir um roteiro traçado no Antigo Testamento (Mateus 26.56). Ele cria nas profecias a Seu respeito (Lucas 24.45). Ele ensinava a partir das Escrituras (Marcos 14.49; Lucas 24.32). Sua mensagem corrobarava a dos profetas (Mateus 7.12), tanto os que são personagens quanto os que têm livros com seus nomes no Antigo Testamento. Na verdade, Ele considerava o Antigo Testamento como Palavra (Mateus 15.3; Marcos 7.13; João 10.35) e sabedoria de Deus (Lucas 11.49). Jesus citou 24 livros diferentes do Antigo Testamento, o qual dividia em Lei, Profetas e Salmos (Lucas 24.44).
 
8. Os apóstolos seguiam o mesmo caminho. Pedro fez seu primeiro sermão resumindo as Escrituras (Atos 2.14-41). Seu segundo sermão está cheio de citações de versos do Antigo Testamento (Atos 3.12-26). Em seu discurso de defesa, Estêvão se serviu do mesmo roteiro (Atos 7.1.53). Filipe fez uma exposição do Evangelho a partir de Isaías, devendo ter citados outros profetas (Atos 8.26-40).
 
9. Em seu primeiro sermão conhecido, Paulo fez o mesmo que seus antecessores (Atos 13.13-47), citando largamente as Escrituras do Antigo Testamento. Na verdade, seu método de evangelização era frequentar habitualmente as sinagogas e nelas expor as Escrituras (Atos 17.2, 18.28). Suas cartas, o espaço que usou para pregar e aconselhar, estão plenas de versículos do Antigo Testamento, que ele considerava como inspirada, útil para ensinar e para conduzir à salvação pela graça de Jesus ( 2Timóteo 3.15).
 
10. As outras epístolas apostólicas derivam das palavras do Antigo Testamento e dos ensinos testemunhados de Jesus toda a sua argumentação e autoridade. Como faz Pedro, por exemplo, elas mostram que o Antigo Testamento desemboca no Novo, pois os profetas anunciaram Jesus, que completou a mensagem deles sobre a salvação (1Pedro 4.9).
 

ISRAEL BELO DE AZEVEDO