Introdução à Bíblia, 4: A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA, 3

A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA, parte 3

"A inspiração da Bíblia não implica que todas os acontecimentos relatados nela têm a aprovação divina ou que todas as palavras registradas têm uma divina autoridade. Não estamos obrigados a defender o engano de Jacó para com seu pai ou o pedido de Elias para que o fogo descesse dos céus ou a aceitar como provenientes do Altíssimo os argumentos dos amigos de Jó ou os elogios de Débora a Jael. Estas ações e palavras não são parte da revelação de Deus, mas são parte do contexto em que a revelação foi dada e foram registradas para nos advertir. O isolamento de partes isoladas da Bíblia tem feito grandes estragos. O Antigo  Testamento é para ser lido e compreendido à luz do Novo Testamento; os primeiros estágios da revelação aparecem na devida perspectiva quando vistos no contexto da revelação completa em Cristo".
(F.F. Bruce)

TRANSMISSÃO, CANONIZAÇÃO E TRADUÇÃO
Há algumas perguntas que precisam de respostas.

(TRANSMISSÃO)
1. Se não há originais (autógrafos), como posso confiar na fidedignidade do texto bíblico?
R.: De fato, não há originais, o que se aplica a todas as obras da antiguidade. Há, no entanto, cópias bem preservadas, razoavelmente antigas e com textos idênticos quando cotejados.
O quadro, a seguir, mostra a antiguidade dos manuscristos do Novo Testamento em comparação com obras antigas.

AUTOR       OBRA        VIDA          EVENTOS        ESCRITO      MS            Evento          Evento
                                                                                                       + antigo  ao Escrito    ao MS
                                                                                                                        em anos        em anos
ESCRITOS DO NOVO TESTAMENTO
Mateus       Evangelho   0-70        4a.C.-30d.C.    50-65/75        200         50                   200
Marcos      Evangelho   15-90?    27 - 30               65/70             225         50                   200
Lucas         Evangelho   10-80?     5 a.C. -30d.C.  60/75             200         50                   200
João          Evangelho   10-100     27-30                 90-110          130         80                   100
Paulo        Cartas           0-65         30                      50-65            200         20-30             200

OUTROS ESCRITOS
Josefo         Guerra         37-100     200 a.C.- 70d.C. 80              950         10-300            900-1200
Josefo         Antiguidades 37-100  200 a.C.- d.C.     65              95           1050  30-300 1000-1300
Tácito         Anais            56-120d.C. 14-68                100-120    850          30-100           800-850
Suetônio     Vidas            69-130     50 a.C. -95d.C.   120           850          25-170           750-900
Plínio          Cartas          60-115     97-112 1              0-112        850          0-3                725-750
Plutarco      Vidas           50-120     500 a.C.- 70d.C. 100           950           30-600 850-1500
Heródoto     História     485-425a.C. 546-478a.C.    430-425a.C.              900  50-125 1400-1450
Tucídides    História     460-400a.C. 431-411a.C.    410-400a.C.              900  0-30 1300-1350
Xenofonte   Anabasis   430-355a.C. 401-399a.C.    385-375a.C.             1350  15-25 1750
Políbio  História   200-120a.C. 220-168a.C.  150a.C.  950  20-7 1100-1150<CP=10>

O mundo conhece 8 cópias das obras de Heródoto, 5 de Aristóteles e 7 de Plínio contra 24 mil cópias manuscritas do Novo Testamento, dos quais 230 são anteriores ao século 6 d.C.
Com relação ao Antigo Testamento, sua fidedignidade é atestada ilustrativamente pelos manuscritos da comunidade de Qumran (no Mar Morto), descobertos em 1947. Entre os 930 fragmentos de manuscritos hebraicos, aramaicos e gregos, datados de  250 a.C. ao século I da Era Cristã, havia uma cópia do livro inteiro de Isaias foi descoberto em Qumran; confrontada com a cópia mais antiga disponível, que era de 980 d.C., mostrou-se idêntica  palavra por palavra em 95% do texto. (E os 5% eram basicamente trocas involuntárias de letras; nada significativo). Eis um texto, para fins de cotejo com qualquer versão moderna:

<CP=12><II>Lembrai-vos das primeiras coisas dos tempos antigos,
pois Eu sou Deus, e não há outro;
eu sou Deus e outro não há como eu.
Narro o fim desde o princípio
e conto desde a antiguidade as coisas que acontecerão.
Meu conselho permanecerá e eu farei o que me agrada.
Chamo do oriente a ave de rapina
e da terra distante chamo o homem do meu conselho.
O que tenho dito, farei cumprir;
o que formei, eu completarei.<FI><FI>
(Isaías 46.9-11 -- Manuscritos de Qumran)

(CANONIZAÇÃO)
2. Quem me garante que não há outros textos também inspirados, mas relegados premeditadamente ao ostracismo?
Resposta 2.1 -- Tanto para o Antigo quanto para o Novo Testamento, os livros foram se tornando sagrados (isto é, recebidos como inspirados) com o tempo. A nenhum autor foi encomendado um livro inspirado. O processo de produção, preservação e canonização foi longo.
O processo de produção foi pluriverso. Nos dois extremos, há conteúdos que foram ditados por Deus e gravados em pedra, como no caso dos Dez Mandamentos, e há textos que foram escritos na prisão para instrução e aconselhamento, como no caso das cartas de Paulo.
A partir do uso intensivo da memória individual (Jeremias 30.2) e comunitária (oral e escrita -- Êxodo 17.14; Isaías 30.8), o material (individual e comunitário) foi sendo guardado, lido e recebido (obedecido) como palavra(s) de Deus. No caso do Antigo Testamento, homens e mulheres de fé do antigo Israel começaram a ler coletivamente esses textos (Neemias 8.1-3), uma vez que as cópias eram das comunidades e não de indivíduos. No caso do Novo, deu-se o mesmo (Apocalipse 1.3), com  diferença que já havia uma história de preservação e canonização. Primeiramente surgiram os pronunciamentos (a Moisés e aos profetas, por exemplo),  que foram preservados oralmente (Êxodo 24.3) e em forma escrita quase simultaneamente (Jeremias 36) ou posteriormente. Depois, foram surgindo as coleções ou livros; a coleção dos salmos levou 500 anos para ficar completa. Por fim, fixou-se consensualmente a lista canônica.
O processo de preservação incluiu o uso de diferentes materiais, como, possivelmente, tabuinhas de madeira (Ezequiel 37.16) e óstracos (fragmentos de cerâmica) e, certamente, tábuas/paredes de pedra (Êxodo 32.15,16; cf. Josué 8.32; Hc 2.2) e rolos de papiro (uma planta -- cf. Jó 8.11 -- que tinha amplo uso, inclusive na navegação -- Isaias 8.2) e de pergaminho (pele curtida de animal, logo mais caros), que permitiam a formação de uma biblioteca pessoal (2Timóteo 4.13).
Nem todos os textos produzidos contemporaneamente (alguns mencionados na própria Bíblia -- Números 21.14; Josué 10.13) aos que acabaram incorporados na Bíblia foram canonizados (aceitos como inspirados). As comunidades foram usando critérios para separar este material, como autoria (um profeta, um apóstolo, ou alguém do seu círculo?), coerência com os demais textos em circulação e uso nos cultos (Lucas 4.14-21).
O material foi, então, organizados em livros (66). Só mais tarde apareceram as divisões editoriais em capítulos por Stephen Langon (século 13 a.C.) e em versículos por Ário Montano (1555).

Resposta 2.2 -- No caso do Antigo Testamento, são conhecidos vários livros, considerados apócrifos ("ocultos") e pseudepígrafos (com autoria atribuída a outras pessoas). Os apócrifos fazem parte da lista canônica empregada pela Igreja Católica Romana, embora não estejam na Bíblia hebraica; foram escritos entre os anos 200 a.C. e 100 a.C., quando o cânon judaico já estava definido.
Os pseudepígrafos (como Livro dos Jubileus, Carta de Aristéia, Livro de Adão e Eva,1Enoque, A Ascensão de Moisés, Salmos de Salomão, Salmo 151, etc.) foram escritos entre 200 a.C e 200 d.C.)
No caso do Novo Testamento, há vários livros fora do cânon, como "Evangelho de Judas", "Pseudo-epístola de Barnabé", " Apocalipse de Pedro", "Evangelho de Tomé", etc. Todos estes livros foram escritos a partir do século 2 d.C. Eles tiveram uma circulação limitada (e ainda assim por ser atribuído a um apóstolo) no tempo e no espaço e foram abandonados porque não eram apostólicos, eram recentes demais, nada acrescentavam teológica ou informativamente aos canônicos (o mais lindo deles, que é a anônima Carta a Diogneto, não passa na maioria de seus versículos de uma coletânea  de citações da própria Bíblia, o que só faz atestar a legitimidade do cânon).
Inexiste uma conspiração para esconder livros que mostrariam doutrinas e informações que não interessaram à igreja. O cristianismo não teve um centro decisório antes do final do século 5, quando o cânon já estava definido e difundido.

(TRADUÇÕES)
3. Se há tantas traduções, quem me garante que não são tendenciosas?
Resposta -- A existência de tantas traduções tem razões mercadológicas, científicas e kerigmáticas.

A Bíblia toda (Antigo e Novo Testamento) foi traduzida primeiramente para o latim, por Jerônimo, no século 4 ("Vulgata" -- para o "vulgo", que não sabia grego).
Com o surgimento das nações-estado, com suas línguas, começaram a surgir traduções para a leitura desses povos. Para o inglês o pioneiro foi Wyclif (1383), a partir da Vulgata. A versão do rei Jaime ou Tiago ("King James version"), de 1611, empreendida por uma equipe de 50 tradutores, tornou-se padrão nesse idioma. Lutero traduziu (1534) a Bíblia para o alemão, a partir dos originais.
Para o português, a primeira tradução foi preparada, fora do seu país, pelo pastor português João Ferreira A. d’Almeida. Ele traduziu, a partir do grego, todo o Novo Testamento, publicado em 1681, em Amsterdam. Quanto ao Antigo, ele chegou, a partir do Hebraico, até Ezequiel, cabendo a seus amigos o restante, publicada em 1753. A partir de 1819, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, de Londres, começou a publicar a tradução de Almeida, a partir de Londres. No Brasil, a primeira tradução ("Tradução brasileira"), feita por uma equipe, foi publicada em 1917; por falta de atualização, caiu em desuso. a Imprensa Bíblica Brasileira publicou a primeira revisão, conhecida como Almeida Revista e Corrigida (ARC), em 1951. Em 1958, Sociedade Bíblica do Brasil publicou a Ameida Revisa e Atualizada (ARA). Em 1972, a IBB publicou outra ("segundo os melhores manuscritos"). Em todas as diferenças são apenas estilísticas.
Os católicos têm sua versão desde 1790, feita pelo padre Antonio Pereira de Figueiredo, em Portugal. No Brasil, há também a de Matos Soares, desde 1946. A Bíblia de Jerusalém foi feita por uma equipe de católicos e protestantes, com predominância dos primeiros.
Todas estas versões são tradicionais, no sentido de priorizarem formalmente o texto original (numa metodologia de equivalência forma). Surgiram outras traduções com outra metodologia, de equivalência dinâmica (como, Bíblia Viva [New Living Translation], Bíblia na Linguagem de Hoje [Good News Bible] e The Message). No meio termo, há as que buscam equilibrar a equivalência formal com a dinâmica (como a Nova Versão Internacional [New International Version] e a New Revised Standard Version).
Têm surgido versões mais ideologizadas (feministas, homossexuais), com pouca aceitação.
Essas versões têm aparecido, em diferentes idiomas, pela motivação legítima, de colocar a Bíblia ao alcance do povo, em termos de estilo e vocabulário. Todas usam o mesmo conjunto de manuscritos aceitos universalmente e não têm diferenças de conteúdo. Todas procuram ser fiéis aos originais grego, hebraico e aramaico. O que muda é o público mirado e a metodologia de tradução empregada. O ideal é que o leitor tenha mais de uma versão, porque o sentido fica mais claro para quem lê dependendo de onde ele está, seja em termos existenciais, espirituais e educacionais.

ISRAEL BELO DE AZEVEDO