Introdução à Bíblia, 5: DA INFORMAÇÃO À IMPLICAÇÃO

CURSO DE INTRODUÇÃO À BÍBLIA

Unidade 4: DA INFORMAÇÃO À IMPLICAÇÃO

Pergunta orientadora: Como posso ler a Bíblia de modo a torná-la parte da minha vida?

“Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para eles sem regarem a terra e fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia, mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei” (Isaías 55.10-11).

1. Preciso aceitar que, em relação a outras obras literárias, a literatura bíblica tem duas especificidades. A primeira é que a Bíblia é sempre obra de dois autores, porque nela estão presentes o Inspirador (porque todos os seus textos são Deus Se revelando) e o autor (porque os homens e mulheres que a escrevem continuam sendo homens e mulheres em toda a sua humanidade). A segunda especificidade é que o texto, para ser Palavra de Deus, demanda implicação por parte do leitor, tornado autor, ao encarnar esta Palavra. A Bíblia é, portanto, uma obra aberta (na expressão de Umberto Eco, cunhada para outro tipo de literatura).

2. Preciso me lembrar que a Bíblia tem diferentes tipos de textos, quanto à sua intenção: uns são narrativos e outros são imperativos.

3. Preciso compreender que há várias maneiras (e não apenas uma) de me aproximar da Bíblia, em função da forma como o autor se expressou e em função da minha condição no momento da leitura. Se mente e coração são os dois destinos do pêndulo, alojáveis nos nichos da crítica (razão) e da entrega (devoção), ele percorre os espaços, pouco demarcados, da interpretação, da imaginação, da meditação e da fruição.

4. Preciso admitir que a Bíblia é uma obra aberta, no sentido que o seu sentido está na interpretação, uma vez que sua narrativa é, muitas vezes, de sentido indeterminado (como no quase-sacrifício de Isaque por Abraão). Não tenho como dispensar a interpretação, já que a Bíblia não é um livro de moral (como a leitura de Juízes evidencia). Nela nem todo o texto tem sentido pleno, que é dado a partir da leitura. A Bíblia, portanto, exige interpretação, o que reforça os princípios protestantes da autoridade normativa da Bíblia e do sacerdócio universal de cada cristão.

5. Preciso ler a Biblia usando todas os recursos dos instrumentos que a razão me confere, se quero compreendê-la (pelo que todo empenho é indispensável), e suspendendo voluntária e conscientemente a razão, para vivê-la. Minhas perguntas/dúvidas não podem me impedir de alcançar o essencial, que é ser conduzido pelo Espírito de Deus. A razão me afasta de uma leitura escrava do

. literalismo
. atomismo
. devocionalismo
. alegorismo (ou tipologismo)
. amuletismo
. iluminacionismo

A fé me livra do

. doutrinarismo
. ceticismo
. historicismo
. relativismo

6. Preciso saber que devo a Bíblia em quatro níveis, que me levam a conhecer (nível da INFORMAÇÃO), entender (nível da COMPREENSÃO), aplicar (nível da APLICAÇÃO) e me envolver (nível da IMPLICAÇÃO ou da ATITUDE). Se tomo a história de Barzilai (2Samuel 17.27-29; 2Samuel 19.31-40ª), sou informado de seu gesto (INFORMAÇÃO), com implicações de ordem pessoal e política; posso compreender suas motivações, bem como as de Davi (COMPREENSÃO); devo aplicar a história ao meu próprio contexto, relacionando-a com outros textos que me convidam à generosidade (APLICAÇÃO), e preciso decidir que a atitude será minha e ver como isto se dará, permitindo que a Bíblia faça parte da minha vida (IMPLICAÇÃO).

7. Preciso reconhecer que a razão e a fé me ajudam a construir a ponte entre o mundo da Bíblia e o meu mundo, entre a mente da Biblia e a minha mente. Feliz serei se a minha mente for bíblica; felizes seremos se o nosso mundo se apropriar dos valores bíblicos.

8. Sempre preciso decidir o que fazer com a Bíblia. O que farei dela depende do que penso dela e do Deus que nela se revela.

ISRAEL BELO DE AZEVEDO